3x20: "JOSE CHUNG'S FROM OUTER SPACE" (DO ESPAÇO SIDERAL)

Harold, um adolescente, e sua namorada, Chrissy, estão passeando quando o motor do seu carro pára. Os dois desmaiam no meio de um clarão muito forte, e dois alienígenas de pele cinzenta os arrastam do local, antes que um alienígena maior os faça parar, urrando muito forte. "Jack", diz um dos alienígenas para o outro. "O que é essa coisa?". "E como diabos acha que eu poderia saber?", responde seu companheiro.

O romancista Jose Chung entrevista Scully, que pede desculpas pela relutância de Mulder em falar com ele. Chung está escrevendo um livro a respeito de abduções praticadas por alienígenas, criando um novo gênero - ficção científica sem ficção - que ele acha que lhe garantirá seu lugar na lista dos "bestsellers". Scully pede apenas que ele escreva a verdade, mas Chung zomba dela, afirmando que cada pessoa interpreta os acontecimentos de um modo diferente. "A verdade é tão subjetiva quanto a realidade", diz ele.

Scully explica que Chrissy foi encontrada com sinais de abuso sexual, e as roupas viradas do avesso, parecendo ter sido vítima de estupro praticado pelo namorado. Harold é detido pela polícia, e diz às autoridades que os dois foram abduzidos por alienígenas. O investigador Manners, que interrogou Harold, não acredita na história que o rapaz está contando. Mas Mulder chega e não se mostra tão certo disso. Ele convence Chrissy a fazer hipnose, e a moça se lembra de ter estado a bordo de uma nave alienígena. Mulder mostra-se impressionado pela descrição que ela faz da nave, mas Scully ache que tudo "é um pouco típico demais", em virtude da abundância de histórias relativas a abduções praticadas por alienígenas. Manners diz a Mulder que ele "realmente ferrou este caso".

Harold também se lembra de ter estado a bordo da nave, mas diz ter visto o alienígena da pele cinzenta fumando e repetindo o tempo todo a frase: "Isso não pode estar acontecendo".

Harold também admite que ele e Chrissy fizeram sexo, o que Mulder considera um fator insignificante, embora Scully afirme que, pelo menos, prova que "não foi um alienígena que fez experiências com ela". Aos olhos de Scully, é mais provável que se trate de um caso de trauma sexual, do que abdução por alienígenas.

Um homem chamado Roky apresenta-se como testemunha, dizendo ter sido visitado por um sujeito de roupas pretas, que procurou convencê-lo de ter visto o planeta Vênus, e não um OVNI, e ameaçando matá-lo se ele dissesse mais alguma coisa às autoridades. Roky entrega o manuscrito que escreveu, com todos os detalhes da história, na qual diz que viu dois pequenos alienígenas sendo atacados por um maior, chamado "Lord Kinbote". Mulder reconhece que Roky provavelmente teve alucinações, mas pode ter visto alguma coisa importante, de maneira que coloca Chrissy novamente sob hipnose. E ela parece corroborar a história contada por Roky. No entanto, Scully acha que Mulder e o hipnotizador a estão fazendo pensar assim. Manners entra e diz aos agentes que foi descoberto o corpo de um alienígena.

Chung também entrevista Blaine, um maluco apreciador de histórias de ficção científica, que sonha em ser abduzido por alienígenas e tem seu próprio modo de interpretar os acontecimentos. Ele diz que viu "pessoas de roupas negras", mas na verdade está falando de Mulder e Scully. Blaine afirma que Mulder dera um grito ao ver o cadáver alienígena, e que Scully o ameaçara de morte se ele falasse alguma coisa. "Ele disse que eu disse o quê?", pergunta a incrédula Scully.

Blaine conseguiu filmar a autópsia, que foi montada em um vídeo - apresentado pelo Estupendo Yappi - chamado Alienígena Morto! Verdade ou Fraude? "Confesso que estou envergonhada", queixa-se Scully, observando que o vídeo foi editado de tal maneira a esconder o fato de que o "alienígena", na verdade, era um major da Força Aérea, usando uma fantasia. Militares da Força Aérea chegam à cidade para levar o corpo mas, quando voltam, o cadáver desapareceu. Blaine também diz que o Homem de Negro tirou-lhe o vídeo e o ameaçou, assim como Mulder havia feito. "Não passei todos estes anos jogando Dungeons and Dragons sem aprender alguma coisa a respeito de coragem", diz ele a Chung.

Depois disso, Scully admite que fica "um pouco estranha" a narrativa que Mulder faz dos acontecimentos. Regressando ao hotel, ele encontra o outro piloto da Força Aérea que havia desaparecido, e que afirma que estava pilotando um OVNI com seu companheiro, como parte de uma operação secreta do governo, mas os dois foram realmente abduzidos por alienígenas. Os oficiais da Força Aérea chegam e levam o soldado embora. Quando Mulder pergunta a respeito do terceiro alienígena, ele responde: "Quem? Lord Kinbote?"

Mulder encontra-se com o Homem de Negro no hotel e este - com a ajuda de Alex Trebek, na vida real apresentador do programa da TV americana Jeopardy! - sugere que alguns encontros com alienígenas são fraudes perpetradas pelo próprio governo. Mulder desperta no quarto de Scully, e ela não se lembra do incidente. Depois, os agentes vão para um lugar onde são informados de que um avião ultra-secreto caiu, o que explicaria os relatos a respeito da presença de OVNIs na região. Até Manners mostra-se chocado quando vê os corpos dos dois pilotos sendo levados da cena. "Sei que provavelmente este caso não está sendo encerrado da maneira como o senhor gostaria, mas tem um desfecho melhor do que alguns dos casos que nós investigamos", diz Scully com humildade.

Mulder decide visitar Chung, pedindo-lhe que não escreva o livro, que poderá ser um "desserviço" em um campo de investigação e pesquisa que tem feito de tudo para adquirir credibilidade. Chung responde que o livro será escrito, mas pergunta o que realmente aconteceu com os dois adolescentes. "E como diabos acha que eu poderia saber?", responde Mulder.

Scully lê o livro Do Espaço Sideral, de Jose Chung, que fala da agente "Diana Lesky" e de seu parceiro "Reynard Muldrake", caracterizado como "uma bomba-relógio de insanidade". Mulder está deitado, assistindo ao filme Bigfoot. Enquanto isso, Harold vai visitar Chrissy, que o manda embora. Quando vemos Harold desaparecendo na noite, Chung nos recorda de que "embora talvez não estejamos sozinhos no universo, segundo a maneira de ser de cada um de nós, neste planeta, nós estamos todos... sozinhos".



Bastidores:
Como não podia deixar de ser, este episódio está cheio de brincadeiras particulares de Arquivo X, a começar pelo seu título. Por brincadeira, a equipe de roteiristas criou o personagem fictício de "Jose Chung", um aspirante a roteirista que vivia telefonando para o escritório (o que o roteirista John Shiban efetivamente fez), perguntando sobre um roteiro que ele teria submetido à apreciação dos produtores. Chung foi várias vezes rejeitado, e a pessoa que vivia recebendo os chamados dele não poderia ter deixado de ficar surpresa e bastante confusa quando o nome apareceu no roteiro de Morgan.

Por diversas razões este episódio logo se tornou um dos prediletos de diversos membros do elenco e da equipe técnica, inclusive de Gillian Anderson, que imediatamente o cita como um dos seus preferidos no terceiro ano da série. Anderson também elogia o diretor Rob Bowman pela maneira cuidadosa como o episódio foi produzido. Por sua vez, David Duchovny diz brincando que o grito desafinado que ele dá em determinado momento do programa aproxima-se bastante de sua voz quando está cantando.

De acordo com Bowman, foi preciso ter muita seriedade para permitir que todo mundo se divertisse. "Existem muitos detalhes no roteiro que eu sei que os espectadores não entenderiam, a menos que eu os contasse de um modo que pudessem ser vistos na história - usando encenações repetitivas e qualquer outra técnica disponível para deixar pistas ao longo do caminho, lembrando como as coisas se combinavam e permitindo que o espectador nos acompanhasse", diz ele.

Bowman admite que ele próprio teve de ler o roteiro "quatorze a quinze vezes" antes de realmente compreender tudo, e aí fazer "uma reunião para detalhar as coisas" com o roteirista Darin Morgan, analisando cada aspecto do episódio.

Apesar dos seus tons cômicos, Bowman admite que o episódio apresentou uma história bastante séria, no que diz respeito às conspirações e acobertamentos que encontramos em sua essência, de maneira que resolveu apresentar com bastante sobriedade as cenas sobre hipnose. "Na verdade, é este o tema de todo o episódio", sugere ele: "a percepção que temos da realidade, e o modo como ela pode ser alterada por meras palavras". Apesar de tudo isso, Bowman arremata: "Foi muito divertido fazer esse trabalho".

Darin Morgan ainda incluiu uma série de outras referências veladas no roteiro, como o título que escolheu para o falso vídeo da autópsia de um alienígena, Alienígena Morto! Verdade ou Fraude? (A Fraude foi o título do primeiro episódio de Arquivo X cujo roteiro ele escreveu), ou batizar o investigador de boca suja de acordo com o nome de Kim Manners, que dirigiu A Fraude e outro dos roteiros de Morgan, A Guerra das Baratas. O próprio Manners adquiriu uma reputação por empregar o que se poderia diplomaticamente chamar de "diálogo apimentado".

"Eu digo muitos palavrões", diz ele com naturalidade. Manners já foi ator, e em um determinado momento estava disposto a fazer ele mesmo o papel do investigador, mas estava cansado demais para fazer isso, devido ao intenso trabalho desenvolvido no episódio que acabara de dirigir. "Eu tinha concordado em participar mas, para o bem do próprio programa, minha primeira responsabilidade era dirigir, e não trabalhar como ator", diz ele.

Talvez mais do que tudo, Do Espaço Sideral representou uma chance para que todas as pessoas envolvidas na série respirassem um pouco, em uma temporada na qual muitas pessoas estavam começando a mostrar seu cansaço e perdendo suas energias. Talvez a maior revelação para toda a equipe tenha sido o ator convidado Charles Nelson Reilly, que conquistou a todos e "nos deu muito ânimo" com seu entusiasmo, conforme palavras do diretor assistente Tom Braidwood. Entre as brincadeiras de Reilly estava o hábito de gritar "Enfermeira! Enfermeira!" toda vez que precisava falar com a supervisora de roteiro, e dar apelidos a todo mundo. Ele chamava a desenhista de guarda-roupa Jenni Gullett e a supervisora de guarda-roupa Gillian Kieft de apelidos como "señorita" e "Carlotta" dizendo, por exemplo: "Muito bem, señorita. E agora?". Quando perguntadas sobre qual ator convidado elas acharam mais interessante em toda a temporada, Gullett e a assistente de guarda-roupa Janice Swayze gritam quase simultaneamente: "Charles Nelson Reilly!". "Ele foi mesmo maravilhoso", concorda Gillian Anderson.

Entre os desafios técnicos esteve o equipamento de tortura dos alienígenas, que se pretendia revelar, sem entrar em colisão com o departamento de padrões e práticas da Fox. O produtor de efeitos visuais Mat Beck também se lembra de que este episódio levou a um dos mais engraçados "reparos", já que um dos pilotos desaparecidos apareceu sem roupa, caminhando pela rodovia, e seu departamento foi chamado para escureceu o traseiro nu do personagem, para evitar as reclamações da Fox. "Produzimos um enorme clarão que partia dos faróis do carro, para cobrir o traseiro dele", diz Beck.

O maior dos três alienígenas - que o roteiro descreve como "Behemoth, vindo do planeta Harryhausen", em homenagem ao mago dos efeitos de animação Ray Harryhausen - na verdade era o coordenador de dublês, Tony Morelli, usando uma fantasia produzida pelo supervisor de efeitos especiais de maquiagem, Toby Lindala. A fantasia tinha quase dois metros e meio de altura, e incluía pernas de pau, de maneira que os pés de Morelli na verdade ficavam à altura dos joelhos do alienígena. Morelli passou mais de dez horas dentro da fantasia, igualando o recorde de Morgan na interpretação do Flukeman, em O Hospedeiro. Lindala acrescenta, orgulhoso, que a fantasia do alienígena tinha olhos e pálpebras que se moviam por controle remoto. Depois, Mat Beck manipulou as cenas por meio de efeitos digitalizados, de maneira que a criatura ficou mais parecida com um personagem de animação.

Do Espaço Sideral também foi o primeiro episódio em que o tema musical de Arquivo X foi usado como fundo dramático, segundo o compositor Mark Snow. Ele alterou a quinta das seis notas para criar uma tonalidade um pouco agridoce, quando acompanha o monólogo de Jose Chung no final, falando a respeito da solidão. "Esse som de assobio nunca foi usado", diz Snow, que chega a nos lembrar de Kim Manners quando acrescenta: "O episódio parecia tão singular que disse: F***-se. Eu vou fazer assim".

O manuscrito do livro de Jose Chung, Do Espaço Sideral, era apenas uma cópia do roteiro do episódio. Do ponto de vista das locações, foi o Ovaltine, um dos mais antigos cafés de Vancouver que a equipe usou para a cena em que Mulder se encontra com o piloto e onde ele devora um pedaço de torta após outro.

* Os nomes de vários pesquisadores e críticos de OVNIs aparecem neste episódio: Condado de Klass foi um nome escolhido em homenagem a Philip Klass, que escreve livros desmentindo relatos de OVNIs. Em seu livro UFOs Explained ele diz: "Nenhum objeto tem sido mais confundido com OVNIs do que o planeta Vênus". Essa frase é muito semelhante a uma fala do antigo lutador Jesse "The Body" Ventura, que faz o papel de um dos Homens de Negro neste episódio.
* Os falsos pilotos alienígenas "Robert Vallee" e "Jack Schaffer" foram batizados de acordo com os nomes dos autores pró-OVNIs Robert Schaffer e Jacques Vallee. O nome do policial militar que prende Schaffer, sargento Hynek, foi escolhido em homenagem a J. Allen Hynek, um pesquisador que já trabalhou para a Força Aérea dos EUA e escreveu o livro The Edge of Reality: A Progress Report on UFOs.
* "Diana Lesky" e "Reynard Muldrake" são pseudônimos ligeiramente disfarçados para "Dana Scully" e "Fox Mulder". "Reynard", ou renard, é uma palavra do idioma francês que significa "raposa", ou "fox".